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Crimes contra o clima: violência e desmatamento na Amazônia

As queimadas e o desmatamento desenfreado na Amazônia têm alimentado a preocupação global com o futuro da maior floresta tropical do mundo, a qual desempenha um papel vital na contenção das mudanças climáticas ao absorver o dióxido de carbono produzido pela combustão de combustíveis fósseis. O que pode perder-se no meio do debate internacional é que o crime organizado é um dos principais motores dessa destruição ambiental. Conter a atividade de grupos ilícitos na região é imperativo, não só pela degradação ambiental que essas organizações infligem, mas também pelo perigo crescente que representam para as comunidades da região.

Os níveis de violência na Amazônia são elevados mesmo para os padrões da América Latina e do Caribe, região que, com apenas 8% da população global, responde por 29% dos homicídios em todo o mundo. Além disso, as taxas de homicídio na Amazônia superam as médias regionais. Essa violência ocorre em áreas rurais e cidades menores que tendem a passar despercebidas pelos governos nacionais e, por isso, são amplamente negligenciadas.

Dentro da Amazônia, os territórios que abrigam a extração de madeira e mineração legal e ilegal, o cultivo de coca e o tráfico de drogas sofrem os piores danos ecológicos e a maior violência. Essas áreas muitas vezes se sobrepõem às terras ancestrais dos povos indígenas, que historicamente desempenharam um papel crucial na salvaguarda da floresta tropical. Não por acaso, as redes criminosas que saqueiam a riqueza da Amazônia fizeram dos ativistas ambientais seus principais alvos. Em 2022, um em cada cinco assassinatos de defensores da terra e do meio ambiente em todo o mundo ocorreu na Amazônia, sendo Colômbia e Brasil os dois países mais perigosos para esse trabalho.

A relação entre a escalada da crise climática e a criminalidade violenta está finalmente recebendo a atenção que merece. A 28ª Cúpula Mundial da Ação Climática da ONU, ou COP28, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, inclui "paz" em sua pauta pela primeira vez na história deste encontro. Ao examinar a interação entre violência e clima em diferentes partes da imensa floresta tropical – a bacia amazônica cobre tanto território quanto a Índia e a União Europeia combinadas – estados e parceiros estrangeiros podem começar a identificar formas de protegê-la e às pessoas que lá residem. Em três partes da Amazônia, como detalhado abaixo, a interação entre crime e exploração ambiental transparece.

Putumayo, Colômbia: protegendo os defensores indígenas

Conflito, paz e meio ambiente muitas vezes cruzam-se na Colômbia, onde os recursos naturais servem como base para o desenvolvimento econômico mas também financiam guerrilheiros e criminosos. Os grupos armados ganham dinheiro tanto com negócios legais, como pecuária e exploração de petróleo, quanto com a mineração ilegal de ouro e cultivo de coca. Encorajadas pela corrupção generalizada, essas operações extrativas causam uma deterioração ambiental visível. Em uma declaração em junho de 2019, o órgão de justiça transicional da Colômbia descreveu notavelmente o ambiente natural como “uma vítima silenciosa” dos longos conflitos armados do país.

Existem poucos lugares na Amazônia tão violentos quanto Putumayo, que está situado no sopé dos Andes, na fronteira com Equador e Peru, e abriga cabeceiras de muitos afluentes do Amazonas. Pelo menos 21 massacres (isto é, assassinatos com três ou mais vítimas) ocorreram desde 2020, com civis, soldados e membros de grupos armados entre as vítimas. A violência é, em parte, um subproduto do cultivo de coca e do tráfico de cocaína que são constantes na região há décadas. O comércio de drogas também causa danos ambientais: produtores derrubam árvores para criar plantações de coca e escavam estradas improvisadas na selva para iniciar novos lotes. Os produtos químicos usados nos laboratórios de cocaína são descartados nos córregos e no solo. O roubo de petróleo bruto de oleodutos na zona rural de Putumayo – utilizado em laboratórios como ingrediente no processamento de coca – causa vazamentos, às vezes contaminando gravemente as fontes de água das quais a população local depende.

Um líder social disse ao Crisis Group que grupos armados forçam agricultores relutantes a cultivar coca, ameaçando aqueles que resistem. “O motor da violência é a questão do tráfico de drogas”, disse um líder agricultor de Putumayo. Entre 1985 e 2011, em meio ao conflito interno na Colômbia, a região testemunhou mais de 8.000 mortes e 2.000 desaparecimentos forçados entre sua população de 300.000 habitantes.

A indústria continua a se expandir – em 2022, a área total de terra usada para cultivar coca em Putumayo aumentou 70% – e agora existem novas fontes de violência. Grande parte dos combates em Putumayo hoje é resultado de batalhas pelo controle territorial entre dois grupos criminosos que surgiram após o acordo de paz de 2016 entre o governo e o maior grupo guerrilheiro, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Um deles é o Comandos de la Frontera, que começou a operar na área em 2020. O outro é a Frente Carolina Ramírez do Estado Mayor Central, uma facção dissidente das FARC que se recusou a assinar o acordo de 2016. Em sua busca para alcançar o domínio em Putumayo, esses grupos atacam-se e a qualquer um que suspeitem estar fornecendo serviços, abrigo ou informações ao inimigo.

Durante décadas, grupos criminosos em Putumayo têm como alvo grupos indígenas que se manifestam pela defesa do meio ambiente. Em 2009, essa violência aumentou de tal forma que o Tribunal Constitucional da Colômbia declarou que os Siona, uma das etnias da região, enfrentavam um “processo iminente de extermínio”. Quase uma década depois, a situação só piorou. Em 2018, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos ordenou ao Estado colombiano que tomasse medidas para salvaguardar vidas indígenas, incluindo esforços para limpar minas terrestres no território de Siona.

Grupos da sociedade civil afirmam que o governo colombiano tem feito muito pouco nesse sentido. Em 2021 e 2022, segundo o observatório de direitos humanos Indepaz, pelo menos 95 líderes indígenas foram mortos na Colômbia, incluindo cinco em Putumayo. Confrontos entre o Comandos de la Frontera e a Frente Carolina Ramírez em setembro deslocaram quase 500 indígenas. Além disso, mais de mil famílias ficaram confinadas em suas casas e aldeias.

Grupos criminosos também atacam a indústria petrolífera legal de Putumayo. Eles frequentemente extorquem empresas petrolíferas e fazem de alvo seus operadores e prestadores de serviços, bem como governos locais que recebem royalties de perfuração. De acordo com líderes comunitários em Putumayo, os grupos armados dependem a tal ponto da indústria petrolífera para obter renda que eles disseram aos moradores locais para pôr um fim a qualquer protesto contra as empresas.

Putumayo está se tornando um prêmio ainda maior à medida que grupos criminosos buscam expandir suas operações fora da Colômbia para o Equador, um centro de exportação de drogas, e estabelecer novas rotas para a Europa através do Brasil. A cocaína é enviada para portos do primeiro país e direto para compradores no Brasil pelo rio Putumayo. Os rios se tornaram “rodovias para o tráfico de drogas”, disse um líder indígena. Sucumbíos, uma província no norte do Equador, é agora um ímã para grupos armados colombianos, informou uma fonte local. O Comandos de la Frontera, em particular, montou acampamentos em Sucumbíos. Está recrutando novos membros no Equador, bem como no Peru.

Madre de Dios, Peru: A busca pelo ouro

Outra região amazônica duramente atingida pelo crime organizado é o departamento de Madre de Dios, no Peru, que faz fronteira com a Bolívia e o Brasil. Esta província é há muito tempo o lar de povos indígenas como os Harakbut e, mais recentemente, passou a sediar assentamentos de garimpeiros ilegais e traficantes de drogas. Pessoas envolvidas em atividades ilícitas começaram a se estabelecer na área no século 20: Madre de Dios é o departamento menos populoso do Peru, e a combinação de recursos naturais e fraca presença do Estado tornaram-no um ímã para seringueiros, madeireiros e garimpeiros trabalhando fora da economia legal.

Apesar de sua reputação de fortes medidas de conservação ambiental, com cerca de metade de seu território designado como áreas protegidas, Madre de Dios sofreu uma rápida mudança na última década. Em 2010, o estado concluiu a construção do trecho final da Rodovia Interoceânica, ligando a região ao Brasil e abrindo a selva para mais garimpeiros com equipamentos pesados. Juntamente com o aumento dos preços do ouro no novo milênio, a nova estrada mudou a face de Madre de Dios para sempre. A população da área aumentou de, aproximadamente, 30.000 em 1981 para mais de 140.000 em 2017, impulsionada em grande parte pela bonança do ouro, que também é a principal causa do desmatamento na região. Estima-se que 18.000 hectares de árvores foram desmatados como resultado da mineração de ouro no sul da Amazônia peruana em 2021 e 2022, com a maior parte desse desmatamento ocorrendo em Madre de Dios. A busca por ouro também levou ao uso generalizado de mercúrio tóxico, que contamina o solo e representa uma grande ameaça à saúde pública. Estima-se que 50.000 garimpeiros em Madre de Dios despejem cerca de 180 toneladas métricas de mercúrio no meio ambiente a cada ano.

Embora mais coca seja cultivada na Colômbia do que em qualquer outro país, a maior parte da coca cultivada na bacia amazônica vem do Peru.

Madre de Dios também está testemunhando um aumento acentuado na produção de coca. Embora mais coca seja cultivada na Colômbia do que em qualquer outro país, a maior parte da coca cultivada na bacia amazônica vem do Peru. Madre de Dios estava quase livre dessa planta antes da pandemia de COVID-19 (que alguns acreditam ter distraído o Estado das atividades policiais) mas viu um aumento de 274% no cultivo de coca entre 2021 e 2022, sendo que vários laboratórios de pasta base de cocaína também foram detectados lá. Segundo uma autoridade estatal, o tráfico de drogas e a produção de pasta base de cocaína estão entre os motivos pelos quais o Comando Vermelho começou a atuar na região.

Como outros focos criminosos na Amazônia, Madre de Dios se tornou um lugar violento. Desde 2017, a região tem a maior taxa de homicídios do Peru. Defensores do meio ambiente locais e uma autoridade estatal atribuem diretamente os assassinatos à expansão do garimpo ilegal, que não apenas impulsiona guerras de território entre os garimpeiros, mas também atrai criminosos de outros lugares que disputam jazidas de ouro premium e buscam extorquir garimpeiros. Fontes locais descrevem as cidades garimpeiras como “um porto livre, sem controle estatal” e denunciam a impunidade dos garimpeiros ilegais e a inação da polícia.

Os garimpeiros frequentemente atacam ou ameaçam os povos indígenas e os defensores do meio ambiente que denunciam atividades ilícitas às autoridades estatais. Um defensor ambiental em Madre de Dios descreveu ao Crisis Group como ele sobreviveu por pouco a um atentado contra sua vida depois que homens armados o seguiram até sua casa. Dito isso, as vítimas também incluem garimpeiros e membros de gangues, muitos deles vindos de fora da região. Vários cadáveres foram “desaparecidos” nas minas, disse uma autoridade estatal, que acrescentou que as autoridades encontraram evidências de corpos queimados. Para se proteger, os empresários da mineração de ouro recorreram ao pagamento de seguranças armados, os quais fomentaram novas ondas de assassinatos em cidades garimpeiras ao enfrentam gangues locais.

Com garimpeiros – predominantemente homens – migrando para a área, milhares de mulheres, incluindo meninas, têm sido traficadas para Madre de Dios. Elas são submetidas à exploração sexual nos chamados “prostibares”, termo peruano para bordel. Em 2019, mais de 1.200 policiais e comandos militares realizaram uma operação na cidade garimpeira de La Pampa, expulsando aproximadamente 6.000 garimpeiros, realizando dezenas de prisões e resgatando mais de 50 mulheres em situações de exploração sexual. Mas essas operações esporádicas pouco fizeram para erradicar o garimpo ilegal. Em 2022, garimpeiros realizaram protestos em resposta a outra ofensiva estatal, levando a confrontos com a polícia que deixaram um morto e uma dúzia de feridos.

Itaituba, Brasil e seus arredores: um “vale-tudo” do garimpo

O município de Itaituba, no Brasil, também passou por uma corrida do ouro depois que a ditadura militar construiu a Rodovia Transamazônica na década de 1970. Como a estrada atravessava a floresta tropical e muitas das terras vizinhas não tinham proprietário legal, garimpeiros aglomeraram-se na região, transformando-a em um centro de mineração de ouro no início da década de 1980. Décadas de garimpo cobraram um preço alto do meio ambiente. Apesar de fazer parte da protegida bacia hidrográfica do Tapajós, o desmatamento em Itaituba triplicou apenas nos últimos cinco anos. Em fevereiro de 2023, o Pará declarou “emergência ambiental” em quinze municípios, incluindo Itaituba, para enfrentar crimes ambientais generalizados. Imagens de satélite mostram vastos trechos áridos na área, indicando não apenas a remoção da cobertura arbórea, mas também a contaminação do solo com mercúrio. Isso colocou em risco o bem-estar dos povos indígenas que vivem em Itaituba: amostras de cabelo e sangue colhidas dessa comunidade mostram níveis de mercúrio que excedem em muito os padrões de saúde.

Embora garimpeiros venham buscando ouro em Itaituba há pelo menos 40 anos, foi sob o governo do ex-presidente de extrema direita Jair Bolsonaro (2019-2022) que o empreendimento se tornou um vale-tudo. Bolsonaro, que vem de uma família de garimpeiros, prometeu “carta branca” aos garimpeiros. Para atrair mais exploradores para a região, ele cortou verbas para órgãos estatais encarregados do controle ambiental e da proteção dos povos indígenas. Um policial que trabalha na área explicou que, embora o governo não tenha feito mudanças legislativas significativas, os garimpeiros sabiam que “podiam fazer o que quisessem”. Em 2022, Bolsonaro vetou a dotação orçamentária para regularização e demarcação de terras indígenas.

Entre 2010 e 2020, a mineração em terras indígenas no Brasil aumentou quase 500%.

Desde então, o número de minas ilegais aumentou nas terras indígenas e garimpeiros violentos frequentemente ameaçam líderes locais que se opõem publicamente às suas atividades. Como as terras não são tituladas, as gangues de garimpeiros lutam entre si pelo controle territorial. A lenta implementação da demarcação permitiu que garimpeiros invadissem terras indígenas. Entre 2010 e 2020, a mineração em terras indígenas no Brasil aumentou quase 500%.

Considere o destino dos Munduruku, um povo indígena que vive em Itaituba e outros municípios do Pará. Imagens de satélite mostram quase duas dezenas de pistas de pouso clandestinas – de onde garimpeiros ilícitos retiram ouro e drogas da Amazônia – em terras Munduruku. Os Munduruku correm risco de ataques violentos, principalmente por parte de garimpeiros: 22 de seus líderes enfrentaram ameaças. No município de Jacareacanga, também no Pará, garimpeiros ilegais incendiaram a casa de um líder comunitário Munduruku como retaliação à repressão estatal ao garimpo ilegal iniciada dois dias antes. Representantes indígenas dizem que a polícia local é cúmplice do crime organizado. “Eles vão ao garimpo (...) para ficar com sua parte do ouro”, disse um deles. Empreendimentos do agronegócio, como fazendas de gado e plantações de soja, também estão crescendo, contribuindo para o rápido desmatamento e colocando ainda mais em risco as comunidades nativas.

Apesar do investimento estatal e corporativo, a Amazônia brasileira muitas vezes se assemelha ao Velho Oeste, como os territórios ocidentais da América do Norte – nominalmente administrados pelos Estados Unidos, mas muitas vezes fortemente disputados entre colonos brancos e povos indígenas – eram conhecidos durante as disputas fora da lei por metais preciosos do século 19. Os garimpeiros de ouro estão frequentemente armados e sem medo de usar suas armas. “As coisas se resolvem sem intervenção do Estado”, disse um advogado de Itaituba. Durante seu governo, Bolsonaro assinou decretos que facilitaram a compra de armas legalmente. Os registros de armas de fogo na Amazônia brasileira aumentaram 91% de 2019 para 2022. “Há uma relação [entre violência e] a presença de recursos naturais”, disse um policial federal que atua na região. As disputas sobre a posse de ouro muitas vezes acabam sendo resolvidas por indivíduos que fazem justiça com as próprias mãos. “Não teríamos esse tipo de problema se a polícia estivesse presente nos assentamentos de garimpeiros, mas como não estão, brigas resultam em mortes”, disse o policial.

As organizações criminosas expandiram-se para outros esquemas lucrativos. A produção ilícita de ouro financia frequentemente uma cascata de crimes associados, incluindo tráfico de seres humanos, trabalho forçado e exploração sexual de mulheres e crianças. A conexão entre mineração ilícita e tráfico de drogas aprofundou-se à medida que os lucros da cocaína são “lavados” por meio de investimentos na extração de ouro. Existem também inúmeros caminhos para que o ouro extraído ilegalmente se infiltre na cadeia de fornecimento legal por meio do uso de documentos falsificados.

Tentados por lucros enormes com o ouro, grupos como o Primeiro Comando da Capital de São Paulo, o maior sindicato do crime do Brasil, agora parecem estar presentes em Itaituba e estão usando o garimpo ilegal para “lavar” os lucros com o tráfico. Segundo uma autoridade policial brasileira, essa organização arrecada uma porcentagem de certas operações de mineração na Amazônia ao mesmo tempo em que financia projetos de mineração ilegal.

Recomendações

A mitigação das mudanças climáticas dependerá, em parte, da conservação e restauração de ecossistemas, como a floresta amazônica, que desempenham um papel global vital na absorção do carbono que a humanidade lança na atmosfera. A Amazônia está agora sob ameaça direta do crime organizado, que evoluiu para deter um extenso portfólio, muitas vezes reinvestindo os lucros em empreendimentos prejudiciais ao meio ambiente. A corrupção da polícia e dos tribunais locais por esses mesmos grupos dificulta a conservação florestal eficaz e a ação penal contra aqueles que têm como alvo ativistas indígenas e defensores da terra. Como resultado, as autoridades nacionais em toda a Amazônia precisam aumentar os esforços para conter o crime e a degradação e violência que ele causa, investigando e julgando grupos ilegais, fornecendo às populações locais alternativas à economia ilícita e coibindo ameaças ao meio ambiente e às pessoas ativamente engajadas em sua defesa.

Um esforço coordenado regionalmente, talvez por meio da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), marcaria um grande passo adiante. Uma conferência organizada pela OTCA em agosto de 2023, com delegações de oito países amazônicos, emitiu uma declaração comprometendo os signatários a “facilitar o intercâmbio de informações e aprimorar a cooperação policial e de inteligência para combater atividades ilegais e crimes ambientais que afetam a Região Amazônica”. A declaração final propôs a criação de um centro regional de cooperação policial em Manaus, Brasil, no coração da floresta tropical. Uma maior cooperação policial regional é certamente bem-vinda, mas as autoridades devem certificar-se de que coordenarão com os representantes das comunidades locais, especialmente com grupos indígenas, que dispõem das informações mais precisas sobre o que está acontecendo no local.

O Brasil e a Colômbia… reduziram as taxas de desmatamento em 2023… [e] buscam eliminar o desmatamento até 2030.

Brasil e Colômbia, que têm governos progressistas ainda na primeira metade de seus mandatos, reduziram as taxas de desmatamento em 2023. Ambos visam eliminar o desmatamento até 2030. Essas duas administrações também criaram esquemas promissores para iniciativas como o fornecimento de apoio financeiro às comunidades locais para a conservação da floresta e erradicação da mineração ilegal de ouro. Mas há uma necessidade premente de uma melhor coordenação entre os governos regionais, a qual muitas vezes vacilou devido à desconfiança mútua. Grupos da sociedade civil também devem participar do monitoramento de invasores de terras violentos que exercem atividades econômicas ilegais. Somente um esforço coletivo envolvendo múltiplos parceiros, juntamente com o aumento do financiamento de governos estrangeiros comprometidos com a conservação da floresta tropical, pode impedir que a Amazônia atinja um nadir de destruição ecológica. Para isso, o Brasil propõe a criação de um fundo para conservar florestas tropicais na COP28.

Outras propostas também poderiam ajudar a estancar a exploração criminosa da Amazônia. Os grupos indígenas defendem um processo acelerado para lhes conceder títulos coletivos de terra, o que lhes daria mais direitos territoriais e uma posição jurídica mais forte para deter a extração ilegal de madeira e mineração e a violência que essas atividades causam. Iniciativas de desenvolvimento rural poderiam fornecer às comunidades alternativas sustentáveis a atividades ilícitas que prejudicam o meio ambiente. Medidas para ajudar a garantir que as commodities da Amazônia sejam rastreáveis – como auditorias de terceiros, relatórios de transparência de empresas e divulgações da cadeia de fornecimento – também poderiam evitar a infiltração de ouro ilícito na cadeia de fornecimento legal. Os esforços de fiscalização legal, por sua vez, devem se concentrar em visar os fluxos ilícitos de dinheiro e os financiadores de crimes ambientais.

Os Emirados Árabes Unidos, que sediam a COP28, aspiram fazer do encontro “a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas mais inclusiva até o momento”. Dado que povos indígenas e representantes de comunidades de todo o mundo, incluindo a Amazônia, viajaram para Dubai, este é um momento raro para os tomadores de decisão nos mais altos níveis reconhecerem as ameaças ambientais que eles enfrentam pessoalmente. Essas pessoas, que estão na linha de frente das mudanças climáticas, estão entre as mais bem posicionadas para ajudar a proteger os ecossistemas mais críticos do planeta. Para isso, no entanto, precisam de ajuda urgente.

Figura 1:

A Figura 1 mostra a perda florestal total anual em milhões de hectares em todos os países da Amazônia. Ela inclui apenas estados da Amazônia. A cobertura florestal é baseada em dados de 2000. Os cálculos são baseados em dados de mudança florestal global (Hansen Global Forest Change Data) em uma resolução espacial de 30m pela Universidade de Maryland, acessados por meio do catálogo de dados do Google Earth Engine. Os dados são processados para se enquadrarem na definição da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (Food and Agriculture Organization em inglês), que é “terreno que abrange mais de 0,5 hectares com árvores com altura superior a 5 metros e uma cobertura de copa superior a 10%”. A área afetada pelo desmatamento é calculada por estado, antes de ser agregada para cada país. Os dados são suavizados por meio da função R loess.

Figura 2:

O mapa mostra as taxas de homicídios (número de homicídios por cem mil habitantes) nos estados da Amazônia em 2022. Também são mostradas as taxas médias nacionais de homicídios. Os cálculos são baseados em dados sobre homicídios fornecidos pela Polícia Nacional do Peru, pela Polícia Nacional da Colômbia, pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil e em dados do censo do Instituto Nacional de Estatística e Informática do Peru, do Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE) da Colômbia e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Figuras 3 and 7:

Os gráficos mostram a perda acumulada de floresta desde 2001 em porcentagem nas duas áreas de interesse, Putumayo, Colômbia, e Pará, Brasil (barras). A perda é comparada com a perda florestal média em todos os outros estados dos respectivos países (linhas). Os dados são primeiramente processados em conformidade com a definição de floresta na Figura 1 e, em seguida, a percentagem de perda florestal é calculada comparando a área florestal anual com a cobertura florestal de base em 2000.

% de perda florestal = Ai /A2000 * 100%

com Ai denotando a área de perda florestal em hectares em um ano específico i, e A2000 a área de cobertura florestal em 2000. A porcentagem da perda florestal acumulada perdida desde 2001 é então calculada.

Figura 4:

O mapa retrata a área de cultivo de coca em 2022 por município, conforme fornecido pelo projeto SIMCI do Programa Global de Monitoramento de Cultivos Ilícitos do UNODC na Colômbia. Quanto mais escuro o tom de verde, maior a área cultivada com coca em um determinado município.

Figura 5:

Este gráfico compara as tendências das taxas de homicídio nos departamentos colombianos com uma área total cultivada com coca entre 2010 e 2022 que está acima do mediana (50% superiores) versus abaixo da mediana (50% inferiores), com base em dados do Sistema Integrado de Monitoramento de Cultivos Ilícitos (SIMCI). As taxas de homicídio (número de homicídios por cem mil habitantes) são calculadas com base nos dados sobre homicídios fornecidos pela Polícia Nacional da Colômbia e nos dados do censo do Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE).

Figura 6:

O gráfico mostra as taxas de homicídio (número de homicídios por cem mil habitantes) em Madre de Dios e no resto do país, com base em dados sobre homicídios da Polícia Nacional do Peru e dados populacionais do Instituto Nacional de Estatística e Informática do Peru.

Figura 8:

Este mapa mostra o garimpo de ouro na Amazônia. Nenhum processamento adicional dos dados. Fonte: Amazon Mining Watch.

Figura 9:

O gráfico mostra as taxas de homicídios (número de homicídios por cem mil habitantes) em Itaituba e no restante do país, com base em dados de homicídios do Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil e dados populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

  • Amazon Mining Watch. 2020. Áreas de mineração detectadas.

  • Dados do censo, Colômbia. Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE).

  • Dados do censo, Peru. Instituto Nacional de Estatística e Informática.

  • Dados do censo, Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

  • Dados sobre o cultivo de coca, Sistema Integrado de Monitoramento de Cultivos Ilícitos (SIMCI). 2023. Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Escritório da Colômbia.

  • GADM. 2012. Base de dados de áreas administrativas globais.

  • Hansen Global Forest Change Data. Hansen, M. C., P. V. Potapov, R. Moore, M. Hancher, S. A. Turubanova, A. Tyukavina, D. Thau, S. V. Stehman, S. J. Goetz, T. R. Loveland, A. Kommareddy, A. Egorov, L. Chini, C.O. Justice e J.R.G. Townshend. 2013.High-Resolution Global Maps of 21st-Century Forest Cover Change”. Science, 342.

  • Dados sobre homicídios, Colômbia. Polícia Nacional da Colômbia.

  • Dados de homicídios, Peru. Sistema de Denúncias Policiais (SIDPOL), Peru.

  • Dados sobre homicídios, Brasil. Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas (Sinesp),

  • Extração de petróleo. 2023. Agência Nacional de Hidrocarbonetos.